A IMIGRAÇÃO AMERICANA
Os efeitos devastadores da Guerra de Secessão (1861-1865)
sobre os estados sulistas impeliram muitos confederados a buscar
uma nova pátria. Vários contatos foram feitos com
brasileiros e houve grande incentivo por parte do governo imperial
em atrair ao país, americanos com conhecimentos agrícolas,
profissionais liberais, pessoas com boa formação
moral e intelectual e, sobretudo, famílias desejosas de
se estabelecer na zona rural.
Já a partir de 1866 começaram a chegar os primeiros
navios a vela, com capacidade para levar 100 famílias,
partindo de Galveston, Texas, New Orleans, e mais tarde Nova York.
A maioria dos imigrantes chegou em 1866 e, com alguns que vieram
até 1890, estima-se em 3.000 a 10.000 o número de
pessoas. É de se notar que boa parte regressou aos EUA
por não se adaptar às novas condições.
Não há dados estatísticos sobre o número
de imigrantes que se fixaram no Brasil, nem sobre os que voltaram.
Tampouco há estimativa do número atual de descendentes.
O Rio de Janeiro foi porto de chegada. Foram recebidos com grandes
festejos e alguns até recepcionados por D. Pedro II, que
lhes ofereceu um mês de hospedagem gratuita no Rio de Janeiro
e lhes doou terra em Iguape.
Grande parte dos imigrantes, á exceção de
um grupo que se dirigiu para a região de além Campinas,
foi para Iguape para ocupar as terras doadas. O clima inóspito
e as terras impróprias para a cultura levaram a maioria
das famílias a migrar, em busca de clima e terras adequadas.
Foi formado um núcleo de cerca de 200 pessoas na região
do Rio Tapajós, onde se radicaram em Santarém. Até
hoje existem membros daquele grupo no Pará, que se reúnem
anualmente em confraternização. O núcleo
que foi para o Rio Doce, no Espírito Santo, não
prosperou.
O grupo que rumou em direção a Campinas, acrescido
de imigrantes que inicialmente foram a Iguape, e que de Santos
subiram a serra até Jundiaí, por estrada de ferro,
constituiu o núcleo de Santa Bárbara que, naquele
tempo, incluía a Americana de hoje, mais as cidades que
hoje são Nova Odessa, Sumaré, Capivari, Piracicaba,
Limeira e Outras.
Destaca-se a atuação do Cel. William Hutchinson
Norris, ex-combatente da Guerra Civil e ex-senador do estado do
Alabama, no assentamento e formação desse núcleo.
Logo ao chegar, ele passou a ministrar cursos práticos
aos fazendeiros da região, interessados no cultivo do algodão
e nas novas técnicas agrícolas.
Pelo seu progresso, o núcleo passou a atrair famílias
que tinham se instalado em outras regiões. Estabeleceu-se
grande comércio com cultivo e beneficiamento do algodão,
notadamente a partir de 1875, apo a inauguração
da Estação de Santa Bárbara. Devido a presença
constante desses imigrantes, o povoado que foi sendo formado nas
imediações da estação passou a ser
conhecido como Vila dos Americanos, Vila Americana e, hoje, Americana,
com aproximadamente 250.000 habitantes.
Pergunta-se: que influência tiveram os imigrantes em seu
novo ambiente? <Voltar>
Agricultura
Como dito acima, primeiramente a plantação e beneficiamento
do algodão, com a adoção, à época,
de modernas técnicas de cultivo, tornadas possíveis
com o emprego do arado, substituindo a enxada, por eles desenhado
e logo depois fabricado em Santa Bárbara. Destaca-se também
a introdução da melancia que, no auge de sua produção,
era embarcada em vagões repletos para Campinas, São
Paulo, Santos. É de se lembrar, ainda, que os americanos
trouxeram a castanha “pecan” para uso próprio,
hoje com variedades melhoradas e produzidas nos estados de São
Paulo e Rio Grande do Sul. <Voltar>
Educação
No campo educacional, a sua influência foi enorme. Começou
com a formação de pequenas classes reunindo crianças
de várias famílias. Com a vinda de missionários
protestantes, alguns nas primeiras levas, e depois com seu fluxo
aumentando, estabeleceram-se instituições famosas
até hoje: Colégio Piracicabano, hoje Universidade
Metodista de Piracicaba; Colégio Mackenzie, hoje Universidade
Mackenzie, em São Paulo; Colégio Presbiteriano,
em Campinas; Colégio Metodista, em Ribeirão Preto;
Escola Agrícola de Lavras, MG, hoje Universidade Federal;
Instituto Granbery, em Juiz de Fora, e vários outros. Os
missionários foram os primeiros professores, mas as aulas
eram dadas em português. <Voltar>
Religião
Os cultos religiosos eram oficiados por missionários Presbiterianos,
Metodistas e Batistas. Atuaram com destaque, tanto na difusão
de suas crenças, como na área educacional, como
mencionado. Inicialmente os cultos e reuniões eram celebrados
nas propriedades dos imigrantes e nos vários núcleos
da imigração. Com a construção da
primeira capela do Campo, lá todos se reuniam aos domingos
para os cultos religiosos, seguidos de almoço, tipo piquenique,
compartilhado por todos. <Voltar>
Profissionais Liberais
As levas de imigrantes incluíram médicos, dentistas
e engenheiros. Na área médica, destaca-se a atuação
do Dr. Roberto Norris, filho do Cel. Norris, que clinicou em Vila
Americana durante 43 anos, seguido de seu genro, Dr. Cícero
Jones. O núcleo da Vila de Santa Bárbara, durante
muitos anos, foi atendido com grande dedicação pelo
Dr. Richard Crisp, que deixou numerosa descendência. No
Rio de Janeiro, a partir a partir de 1909, clinicou durante 42
anos o Dr. Franklin Pyles, filho de um dos pioneiros. Foi o primeiro
médico no Brasil a fazer transfusão de sangue, prática
que se difundiu largamente no país. Foi grande também
a influência de novos métodos de odontologia adotados
pelos imigrantes e seus descendentes. Também é de
se ressaltar a atuação de vários engenheiros
pelo país afora, inclusive na construção
da estrada de ferro Madeira-Mamoré. <Voltar>
Maçonaria
Muitos imigrantes eram maçons e, na Vila de Santa Bárbara,
foi fundada a primeira loja. No Cemitério do Campo vários
túmulos dos pioneiros ostentam o símbolo maçônico.
<Voltar>
Usos e Costumes
Os americanos não se esqueceram de suas origens e do
seu legado cultural: a comida, tipicamente sulista, a construção
de lareiras em suas casas, as festas, os piqueniques, os vestuários,
as reuniões, a religião.
Até a segunda geração praticamente só
se casavam entre si. A partir da terceira geração
e das seguintes foi-se ampliando a miscigenação.
Hoje, todos brasileiros, nos orgulhamos das várias origens
dos descendentes: italianos, alemães, árabes, japoneses
e outras.
Lamenta-se apenas que, com o passar do tempo, não se fale
mais o inglês entre as famílias, predominando o português,
mas, nota-se, principalmente entre os jovens descendentes, a vontade
e o empenho em conhecer o inglês e os costumes do país
de origem. <Voltar>
Cemitério do Campo
Naquele tempo era proibido o sepultamento de não católicos
nos cemitérios públicos. Quando faleceu Beatrice
Oliver em 1867, esposa do Cel. Oliver, ele foi forçado
a enterrá-la em sua fazenda no Campo, região sul
de Santa Bárbara. O Campo é assim denominado por
apresentar uma vegetação rala e terra imprópria
para cultura. Logo depois faleceram suas duas filhas. A pequena
área foi cercada com arame e deu origem ao Cemitério
do Campo. Com a morte do Cel. Oliver em 1873, a propriedade foi
vendida à família Bookwalter, que doou mais ou menos
10.000metros quadrados, incluindo a área reservada pelos
Oliver, para a formação de um cemitério,
cuja manutenção foi feita pela família Bookwalter
até os anos 50. Até hoje são lá enterrados
os descendentes.
Em 1871 iniciou-se a campanha para a construção
de uma capela, dentro do cemitério. Em 1878 este sonho
da comunidade se realizou com a inauguração da primeira
capela, de madeira. O solo é muito instável e movediço
e a capela foi reconstruída mais duas vezes: em 1903 de
tijolos e em 1962 também de tijolos. Singela, e seguindo
o estilo primitivo, ela vem galhardamente resistindo à
instabilidade do solo. <Voltar>
Fraternidade Descendência
Americana
A partir de 1954, o Cemitério do Campo, com as suas dependências,
passou a ser administrado pela Fraternidade Descendência
Americana. Por dependências, compreende-se o pátio
arborizado em frente ao cemitério e a capela, onde se acham
a casa do caseiro, um amplo galpão para reuniões
e, notadamente, um obelisco com a bandeira confederada e os nomes
da família de muitos dos pioneiros.
A entidade conta com cerca de 200 sócios contribuintes.
Um boletim noticioso é-lhes enviados trimestralmente, e
a outros tantos descendentes, representando um importante elo
entre os descendentes de várias partes do país.
Segundo a tradição, constam de um culto, seguido
de discussão de negócios e culminando um almoço
tipo piquenique, por todos compartilhado. Anualmente é
realizada a Festa Confederada, com comidas típicas, danças
e música, visando principalmente, o congraçamento
dos descendentes e também a angariação de
fundos para a preservação do Cemitério e
suas dependências. <Voltar>
Escrito por: Lucy Mac Knight em outubro de 1997.